Ademar Vieira, Romahs Mascarenhas e Cora Rufino destacam a importância do criador de ‘O Menino Maluquinho’
O legado de Ziraldo, o criador de “O Menino Maluquinho”, permanece vivo no coração daqueles que são fãs de sua arte. O desenhista e escritor morreu dormindo em casa, no bairro da Lagoa, Zona Sul do Rio de Janeiro, na tarde do último sábado (6). E o que fica é a admiração por parte de artistas de todo o Brasil, muito deles influenciados por ele a partir de seus característicos traços.
O cartunista, escritor, quadrinista e roteirista dos Estúdios Maurício de Sousa, Rohmas Mascarenhas tem um traço cartoon que foi mais utilizado em ilustrações e seus trabalhos em jornais. Um traço menos realista, influenciado pelo Ziraldo e pelos cartunistas e chargistas da geração dele. 
Romahs Mascarenhas foi influenciado pelo Ziraldo e pelos cartunistas e chargistas da geração dele ()
Ziraldo era o outro cartunista, e possuía outros quadrinhos brasileiros que Romahs conhecia quando criança e adolescente, além dos de Maurício de Sousa. “E não era nem ‘O menino Maluquinho’, era a ‘Turma do Pererê’, que eu conseguia ainda encontrar, ter acesso e ler”, recorda.
Para Mascarenhas, nos dias de hoje, o Ziraldo continua sendo um artista diferenciado. “Eu diria genial, porque o tipo de cartoon que ele faz, de livro infantil, infanto-juvenil, o material para a publicidade, as charges, os personagens que ele criou, influenciaram tanto as gerações que vieram depois quanto as contemporâneas agora. Você percebe muita coisa do Ziraldo, mesmo que esse pessoal não tenha acesso diretamente ao material dele, não procure, não vá atrás, mas eles acabam bebendo em fontes que são indiretamente até influenciadas pelo Ziraldo, que foi, junto com Maurício de Sousa, um dos maiores cartunistas desse País”.
Traços e histórias
A atriz e cartunista Cora Rufino, que assina seus quadrinhos como Coralina, conhece o trabalho de Ziraldo desde quando era criança. “Eu estou com 37 anos agora, e nos anos 90, nas bancas de jornal de Boa Vista, tinha as revistas do ‘Menino Maluquinho’. E de vez em quando alguma livraria comprava algum livro dele. Na escola também tinha livros dele. Então ele foi muito presente na minha infância”, recorda.
Cora Rufino consome os livros de Ziraldo desde a infância ()
Ziraldo também contribuiu com o traço de Cora. A cartunista se deu conta que se tratava um traço simples, retilíneo, geométrico, e, para ela, não parecia tão difícil de reproduzir. “Embora hoje, com a visão que eu tenho, eu sei que para ele chegar naquela simplicidade, ele fez todo um estudo. E o estilo dele é marcante, tanto da tipografia, das letras, que são redondas por fora e quadradas por dentro, como dos personagens também, que tem aquela cabeça redonda e os braços retos, sem muita musculatura”, pontua.
Para ela, foi fundamental reparar nesses detalhes enquanto ela estava aprendendo a desenhar. “Claro, eu tive muita influência, porque eu vi que não precisava de mais que aquilo para desenhar. O que precisava era ter história para contar. E isso ele me ensinou, sabe, que com traço simples e boas histórias a gente consegue fazer uma obra”, celebra.
Marcado na história
O roteirista e quadrinista amazonense Ademar Vieira revela que, particularmente, não é um grande admirador do traço de Ziraldo, visto que as suas influências são outras, como, por exemplo, Hergé, o criador de Tintim. Contudo, para ele é inegável a influência de Ziraldo e de suas obras nos artistas brasileiros, especialmente nos quadrinistas.
Para Ademar Vieira, é inegável a influência de Ziraldo e de suas obras nos quadrinhos brasileiros ()
“Sua importância transcende seu estilo visual e sua obra mais famosa (‘O Menino Maluquinho’). Ele foi um artista com um posicionamento político firme e engajado na luta social. Ajudou a fundar o jornal ‘O Pasquim’, que se tornou um marco no enfrentamento à ditadura militar”, destaca Ademar.
“Mesmo sendo preso, após a decretação do Al-5, Ziraldo não se deixou abater, continuando a produzir, escrever e debater questões relevantes para o Brasil. O legado de obras como ‘Flicts’, ‘A Turma do Pererê’, ‘O Menino Maluquinho’, ‘O Pasquim’, ‘Bundas’ e ‘Os Meninos do Espaço’ está profundamente marcado na história da arte contemporânea do Brasil”, conclui.
Fonte: A Crítica


